OvO

Escrever sobre crianças

 

Alguém devia fazer um estudo de como se descrevem cenas com crianças. Talvez eu mesma faça, já que me encanta esse subgênero da literatura pedagógica. Um dos que mais bem relata cenas de brincadeiras é, sem dúvida, o grande Gianni Rodari, o italiano aficionado pelo entendimento da fantasia e cujos estudos fundamentam parte da pedagogia de Reggio Emilia. Outro é o sociólogo americano William Corsaro, de quem não canso de reler uma cena em particular, ocorrida numa pré-escola italiana.

Acho que farei, sim, o tal estudo. Aliás, vou começar agora mesmo, anotando o seguinte: descreve bem uma brincadeira quem brinca de interpretá-la. O melhor relato não é o mais fiel, e sim o que imagina, compartilha de uma certa animação que mantém viva, de um lado, a brincadeira, e de outro a narrativa da brincadeira. Posso estar exagerando, mas tenho motivos para crer que a descrição mais científica tem um quê de brincadeira.

Vamos aos mestres. Na crônica “Jogos no parque”, encontramos um Gianni Rodari ainda jovem, observando por trás da vidraça duas crianças brincando no jardim. Notem como ele interpõe às anotações exatas, de horário e idade, as suas próprias hipóteses interpretativas, conseguindo com isso um feito inédito de nos colocar ao mesmo tempo em contato com a cena e com a teoria da cena, como se houvesse entre elas uma relação temporal:

Hora: 10:30 – Giorgio (sete anos) e Roberta (cinco anos e meio) saem do hotel para o parque que o circunda.

Roberta: Vamos pegar lagartixas?

Eu, que estou observando da janela, entendo muito bem o porquê daquela proposta: Roberta pega lagartixas com a mão, Giorgio, ao contrário, sente nojo. Geralmente Giorgio quer brincar de correr porque é mais rápido. Roberta prefere desenhar, porque é melhor no desenho. A natureza é desleal em sua inocência.

Passeiam lentamente. Mais que procurar lagartixas, procuram o acaso. Disse-o também Novalis: “Brincar é experimentar com o acaso”. Evitam os lugares mais abertos, permanecendo atrás da cozinha, onde os pinheiros são mais domésticos. Aproximam-se de uma pilha de lenha.

Roberta: Nós nos escondíamos.

O imperfeito é o sinal de que a tensão acabou; o tátonnement está para tomar a forma de um jogo. O verbo estabeleceu a distância entre o mundo tomado em si, como é, e o mundo transformado em símbolos para o jogo.

E algumas páginas à frente:

Hora: 11:25 – Recolocam a lenha na pilha, como se tivessem acabado de brincar. Giorgio é o tipo de criança que ensinaram a “deixar tudo em ordem”. E o novo trabalho ganha um inesperado ritmo: Giorgio recolhe os pedaços de lenha, Roberta coloca-os sobre a pilha.

Roberta: Eu que guardava.

Este uso do imperfeito indica que também a ação de recolher e recolocar os pedaços de lenha sobre a pilha foi transformada em jogo, em “sinal” de si mesma. “Eu que guardo” seria trabalho, fadiga; “eu que guardava” é a assunção de um papel.

A acuidade da observação de Rodari é notável. Ele se dá conta de que as crianças modulam os tempos verbais sempre que passam de um campo de significação a outro, ou do mundo “de verdade” para o “de brincadeira”. Esse trânsito é constante; caso pudéssemos ler a crônica na íntegra encontraríamos outras anotações do mesmo fenômeno. Mas Rodari não se limita a descrever o fenômeno: ele o interpreta. Propõe um significado para o uso dos verbos no imperfeito: “é o sinal de que a tensão acabou”; “a ação foi transformada em jogo”; “é a assunção de um papel”. Não interessa que o leitor concorde com as hipóteses levantadas, trata-se de trazê-lo para mais perto do autor, e não das crianças. Rodari quer que entendamos que há uma certa lógica na fantasia e que esta se verifica pelo emprego de uma linguagem específica.

Corta para minha própria experiência. Desde que passei a observar com mais rigor os jogos simbólicos de crianças de 4 e 5 anos, notei como também elas (e não apenas as de Rodari) se expressam por meio do imperfeito (“aí você era a princesa, e eu era a heroína” etc). Minha filha procura, adicionalmente, aproximar sua fala da língua escrita, acrescentando rigor onde talvez se esperasse um tom solto. Ao invés de “você tem que pegá a colher pra mexê a massa”, ela prefere “pegaR a colher pARA mexeR a massa”, tornando audíveis todas as vibrações do R na boca. A escolha das palavras também é especial: “panelinha” é “panela” e “bonequinha” vira “boneca”; diminutivos são usados pelos adultos para se referir a coisas de criança, não fornecem a seriedade necessária para levar a cabo a fantasia na hora da brincadeira. Talvez porque, ao brincar, ela não sinta que está imitando alguma coisa (a panelinha não é uma imitação da panela em tamanho natural), mas que a brincadeira é ela mesma uma realidade efetiva.

Eu poderia empregar um lugar-comum e dizer que “brincadeira é coisa séria”, mas acho que os exemplos que dei e a própria descrição da brincadeira trazida por Rodari dão conta de mostrar que essa seriedade não tem o valor (risível) de afirmar que as crianças não distinguem fantasia de cotidiano, e sim que se investem com responsabilidade no papel de diretoras de uma farsa que procuram sustentar, e para tanto se empenham como nós nos empenhamos em tarefas inúteis e absurdas como, por exemplo, escrever um texto sobre esse assunto. Ora, por que me dou a esse trabalho? Não saberia dizer. E talvez seja isso mesmo o que queiram as crianças ao brincar: fazer algo a sério e por prazer, mas sem saber por que fazem.

O próprio esforço interpretativo do adulto seria uma espécie de brincadeira, no sentido de ação absurda que se impõe ao mundo como necessária, embora não o seja de maneira nenhuma.

O esforço de compreensão que Gianni Rodari faz na crônica citada não é maior que o de William Corsaro em seu artigo “Entrada no campo, aceitação e natureza da participação nos estudos etnográficos com crianças pequenas”, no qual ele relata como ao longo dos anos foi deixando de fazer pesquisas sobre crianças e passou a fazer pesquisas com elas.

É um artigo delicioso, divertido, em que o autor descreve a si mesmo como uma figura meio quixotesca que conquistou seu lugar junto às crianças ao se tornar uma espécie de adulto inábil de quem elas podiam caçoar. Embora admita que se tornar criança é impossível (tornar-se o outro que se quer estudar é a utopia de todo etnólogo), Corsaro desenvolveu uma teoria muito interessante e simples sobre como conseguir acesso às comunidades infantis. No trecho a seguir ele narra de maneira sucinta sua estratégia:

Vendo como os adultos eram ativos e controladores em sua interação com as crianças na pré-escola, decidi adotar uma estratégia de entrada “reativa”. Na minha primeira semana na escola, fiquei continuadamente em áreas dominadas pelas crianças e esperei que elas reagissem à minha presença. […]

Estava me levantando para ir para dentro da escola, quando ouvi alguém dizer:

— Que que cê tá fazendo? — Sue tinha se aproximado por trás e, agora, estava perto de mim, na caixa de areia.

— Só tô olhando — disse.

— Para quê? — ela perguntou.

— Porque gosto.

Então, ela perguntou meu nome. Eu disse (e isso foi importante):

— Sou o Bill e você é a Sue.

Ela recuou dois passos e perguntou:

– Como você sabe meu nome?

Fiz então uma coisa que adultos não costumam fazer quando falam com crianças pequenas, especialmente quando pensam que elas não vão entender a resposta: Disse a verdade sem tentar simplificar.

— Ouvi Laura e algumas outras crianças te chamar de Sue.

— Mas como você sabe o meu nome? — perguntou a Sue de novo.

Batendo na mesma tecla, repeti que havia ouvido que outras crianças a chamavam de Sue. Ela me olhou atônita, virou bruscamente e correu para dentro da escola. Que maravilha! Após vários dias tentando me tornar uma das crianças, e quando, finalmente, uma delas fala comigo eu a apavoro! Mas então a Sue voltou da escola e veio correndo até mim, com o Jonathan. Quando chegaram, o Jonathan perguntou:

— Como me chamo?

— Jonathan — respondi.

— Como você sabe meu nome?

— Ouvi o Peter [um garoto com quem costumava brincar] e algumas outras crianças te chamar de Jonathan — disse.

— Viu, não disse que ele sabe mágica? — disse a Sue.

— Não, não, peraí — retrucou o Jonathan. — Quem são aqueles ali — perguntou, apontando para a Lanny e o Frank.

— Lanny e Frank — respondi com segurança. Conhecia todas as crianças. O Jonathan olhou em torno, tentando achar alguém mais difícil e me perguntou os nomes de mais três. Respondi a todas as perguntas.

Então, com um sorriso malicioso, perguntou:

— Tá bom, como se chama minha irmãzinha?

Dessa vez, o Jonathan achou que me pegara. Mas eu sabia o nome da sua irmã. A secretária da escola havia me dado uma lista com os nomes das crianças, de seus pais e de seus irmãos e irmãs. Havia decorado muitas dessas informações e, felizmente para mim, lembrava o nome da irmã do Jonathan.

— Alicia! — afirmei. Isso me fez me sentir bem. Jonathan ficou muito impressionado. Olhou para a Sue e disse:

— Não sei qual é a desse cara — e correu para contar tudo ao Peter e ao Daniel. Enquanto isso, a Sue me deu uma pá.

— Quer cavar?

— Quero — disse, pegando a pá.

O que mais gosto nesta história de Corsaro é a maneira como ele a conta. Em alguns trechos, as soluções parecem mágicas. O fato de que ele decorou todos os nomes as crianças que observava, por exemplo, parece saído de um livro de ficção. Quem já fez pesquisa de campo em escola sabe como a quantidade absurda de informações pode ser desnorteante e nesse contexto decorar os nomes de tantas pessoas só pode ser uma grande sorte — ou então uma lorota. Tenho certeza de que Corsaro não inventou esse fato, mas talvez o tenha exagerado como recurso retórico que em nada modifica a ação que descreve. De fato, as crianças sentiram que ele sabia mais delas do que elas dele, o que é compreensível, já que ele estava ali justamente para isso, ao passo que elas tinham mais o que fazer.

Gosto também de pensar que as cenas, quando ocorrem no campo, de fato parecem comuns a quem não precisa enxergá-las como extraordinárias, porque tudo ocorre naquele contexto mais ou menos indistinto que nós adultos costumamos chamar de “universo infantil”, onde “tudo pode acontecer”…

Quando, no entanto, fazemos um (baita) esforço para observar com mais cuidado o que de fato se passa ali, não raro descobrimos que se trata de uma cultura diversa da nossa, na qual somos nós as vítimas de estereotipia. As crianças tendem a nos ver como “adultos”, “pais” ou “professores”, figuras mais ou menos conhecidas delas e das quais já esperam certos comportamentos. Romper essa barreira é o trabalho do pesquisador de crianças, e é sobre isso que Corsaro se debruça nesse artigo. Mas percebam: ele entra na brincadeira ao tentar romantizar suas questões, forçando a tinta nos pontos em que surge como personagem central e, ao mesmo tempo, anti-herói. É como se para se referir ao universo da fantasia (trata-se de estudar a cultura de pares e, muito especialmente as brincadeiras entre pares) fosse mais eficiente lançar mão de uma dose de fantasia também, não inventando fatos, mas praticando a retórica, segundo a qual cabe ao narrador pesar a mão em determinados aspectos para conquistar a empatia do leitor.

Para se falar de crianças é mesmo bastante eficiente lançar mão de uma linguagem criativa, que nos aproxime do autor das observações. Nos sentimos, quem sabe, comovidos (eu com certeza) por rever uma cena que já vimos tantas vezes, porém de maneira mais crítica. É uma revelação. Crianças são objetos de estudo bastante comuns; não é preciso recorrer a laboratórios ou viajar ao pólo Norte para ter contato com elas. Estão por toda parte. E isso é que faz desse tipo de “cronista” (o cronista de nossas interações com as crianças) um sujeito relevante. Ele não nos conta algo que nunca vimos, mas faz com que aquilo que já cansamos de saber se torne novo, interessante, surpreendente. Alguns, como os dois que citei aqui, fazem disso uma escrita para o deleite.

Experimentem.

Estupradores de batina, de gravata ou de avental

Gostaria de lembrar da data certa, mas a memória não é precisa. O impacto da notícia de que houve um estupro coletivo de uma menina de 16 anos há uma semana, no Rio de Janeiro, sobrepõe-se agora e não consigo capturar muito bem o contexto que busco para cravar uma data. Vamos com 2000 e pouco.

Era hora do almoço e saímos para almoçar numa lanchonete fedorenta, próxima à editora onde eu dava expediente naqueles dias. Comigo, outros dois colegas de escritório. Um deles havia sido jornalista em suas vidas passadas e como trabalhara com a mulher cujas fotos íntimas haviam vazado poucos dias antes e que chegaram à minha caixa de entrada, perguntei se ele tinha ouvido falar do caso. Tinha. Perguntei se tinha visto as fotos, e obviamente, tinha. Passados os minutos obrigatórios durante os quais ele comentou sobre a forma física da mulher e as poses que ela havia escolhido para o ensaio sensual que fizera para o amante, perguntei o que ele achava do vazamento. Eu mesma não tinha muita certeza dos motivos que me levavam a pensar nela como vítima da situação, e portanto não tive também certeza de por que senti necessidade de me afastar afetivamente do rapaz que, naquele almoço, contou inúmeros pormenores de como era o comportamento dela no trabalho (entojada, superior) e de como ela havia retornado ao trabalho uma semana após o vazamento sem fazer nenhum comentário. Me perguntei que comentário ela poderia fazer, se ele talvez esperava que ela pedisse desculpas, mas não ousei abrir a boca. Perguntei se as pessoas comentaram muito e como ficou o ambiente depois do escândalo, e ele disse que na mesma: ela não perdera o cargo, não deixou de ter comandados na revista e nem nada parecido. O rapaz não disse que apoiava o vazamento, apenas era irredutível na necessidade de atacar a mulher. O amante era o diretor da revista, ela era casada com outro homem e com este tinha filhos e “mesmo assim” fez as fotos. Para ele, isso bastava para sustentar sua raiva e não enxergar o absurdo da situação. Ele tinha dados para sustentar que ela não era vítima: havia contratado um fotógrafo para produzir o ensaio; havia também enviado as imagens para o e-mail do diretor da revista com quem tinha um caso.

Na minha ótica, nenhuma dessas informações modificava o fato de que ela fora violentada e que cada pessoa que via, comentava e ria das fotos era um pouco conivente com aquilo. Quando eu disse isso, o rapaz pareceu concordar, mas ele não chegava onde eu queria: ele não se indignava com o vazamento das imagens.

Algum tempo depois disso fizemos uma pequena festa em casa e amigos do meu então namorado, jornalistas como ele, compareceram. Entre eles, uma moça com quem eu tinha algum grau de intimidade e que sendo uma das poucas mulheres ali presentes me pareceu a interlocutora ideal para tratar do assunto. Ela fez um comentário que jamais esqueci: disse que a princípio achou que as fotos fossem falsas, porque achava “impossível uma jornalista ter aquele corpo”. Em seguida ela prosseguiu fazendo uma série de comentários mais gerais sobre os elementos que compunham os cenários, como um vibrador metálico e coisas assim. De novo, não obtive a tão esperada indignação com o vazamento.

Ambos os personagens que aqui citei passaram a apoiar, ao menos no Facebook, campanhas contra a cultura do estupro e outras pautas feministas que ganharam mais espaço de uns anos para cá. Não sei se têm alguma ideia de que as campanhas se destinam justamente a comportamentos não extremos como os deles. Essas campanhas não se destinam aos estupradores de fato, mas àqueles que não veem mal nenhum em humilhar, rir e tratar como coisa que a mulher procurou violências inomináveis como a humilhação pública (ou apedrejamento em praça pública simbólico) e a exposição indesejada de fotografias íntimas na internet, por exemplo. Acho que não. Aposto que não. Mas confio que eles tenham melhorado.

É para esse tipo de coisa que se faz campanha contra a cultura do estupro. A campanha não é contra o estupro, ela é mais ampla: é contra achar natural a violência que leva a ele. Tem gente que não acho ok um estupro, mas acha normal toda a cultura de violência que corre solta antes dele. Por exemplo, quando faz ouvidos moucos a um relato de violência e, com isso, deixa sozinha a vítima e solta a fera que estuprou ou talvez um dia estupre. Suportar essa fera é cultura do estupro. Ensinar as meninas a não se tornar vítima de estupro é aceitar que os homens não conseguem segurar seu desejo e sua violência; o melhor seria ensiná-los que estupro não é desejo, que desejo não é só deles. Fazer comentários sobre a borda de uma cena cujo centro é a violência é cultura do estupro – ela é mandona, ela trai o marido, ela é cafona, ela é gostosa demais.

Não se solidarizar com uma mulher que tem seu corpo exposto na internet contra a sua vontade me fez lembrar de duas músicas do Caetano; numa ele fala da “mais triste nação” composta de “possíveis grupos de linchadores”, na outra, de “genocidas em potencial, de batina, de gravata ou de avental”.

Não é suficiente indignar-se com um estupro. É preciso indignar-se antes, indignar-se com o fato de que uma mulher nua, bêbada e maquiada na rua à noite é xingada ou julgada, e não indignar-se com a nudez e a embriaguez dela. Nenhuma mulher nem nenhuma criança nem nenhum homem merece menos ouvido e respeito; uma jornalista gostosa e mandona não merece menos respeito por ser mandona e gostosa.

 

Essa indignação seletiva é o que se quer combater com as campanhas contra a cultura do estupro. É para criar uma indignação mais geral que elas existem.

Mas que horror ter de fazê-las.

Menos

Parece que quando o namoro terminou a filha dela tinha 2 anos. O ex-namorado não era o pai, mas havia criado um laço afetivo com a menina, começou a namorar com a mãe quando a criança não completara 1 ano.  No início ela não estranhou que o ex dissesse ter saudades da sua filha, mas conforme o tempo foi passando e ela se desligou inteiramente do namorado, aqueles encontros se tornaram um fardo. O que ele quer com a minha filha, ela pensava, a essa altura com uma ponta de desconfiança. O ex nunca teve atribuições no cotidiano da menina, jamais morou na mesma casa que elas e, para além de ter sido namorado da mãe, nunca havia sido posto na pele de pai. Por que agora? Ao final de alguns meses, a mulher se viu atada a dois homens que já não lhe diziam nada afetivamente, mas que por um motivo ou outro se relacionavam com a filha. Um era o pai, o outro parecia ser. Ela, que afinal sempre se vira com tempo curto e responsabilidade demais, demorou para se dar conta de que não lhe agradava lidar com mais uma fonte de compromisso e visitação. Quando começou a namorar novamente, surpreendeu-se pedindo ao rapaz que fosse embora mais cedo, porque o ex-namorado combinara de passar na casa e deixar um presente para a menina, que estava de férias na casa do pai. Não sei exatamente como terminou esse caso; perdi o contato com a mãe. Mas sempre que me vejo fazendo um esforço épico para mesclar os meus interesses, os da minha filha e os do pai dela, lembro dessa história e penso um tanto absurdamente que podia ser pior.

Nova fase

Há tempos venho pensando em migrar de endereço para não misturar relatos de maternidade — a tônica até aqui — com outros relatos, mais a ver com as questões que andam passando por aqui. No final, decidi pelo seguinte. Vai ficar todo mundo junto. Os escritos sobre minha filha vão continuar aqui, como arquivos, e outros assuntos passarão a fazer companhia ao “ovo” que nunca deixarei de chocar.

Então é isso. Em breve ajeito a cara do blog e tudo mais.
Beijos

Morte #2

Lembro perfeitamente de não considerar a hipótese de ele não ter comprado algo maior. Mas foi o que ele disse: “o vovô não comprou ovo grande esse ano, só tem esse”. Era um ovo minúsculo, pouco menor que o de galinha, ovo de chocolate, só que oco. Balancei o embrulho improvável, aquela piada, e me excitei mais ainda. Haha: cadê o ovo de verdade? Isso vai ser emocionante, eu pensava, é tudo uma armação do vovô, isso aqui é uma pista falsa.

E um minuto inteiro se passou. “Chega disso”, minha mãe exigiu. “Este É o seu ovo”. Aquele ovo sem graça, o meu avô sem graça. Logo ele, que sempre estava no comando e não deixava nada dar errado.

Então vieram outros minutos. Quando entendi finalmente que o errado tinha se instaurado na lista de possibilidades que acontecem, me dei conta dos sinais. Olhei para ele. Meu avô era velho, não tinha dinheiro, estava cansado. Lembro tão bem da calça, sempre estivera com as barras roídas? Os óculos sempre foram tortos? O topete sempre lhe tapou os olhos, como folha de bananeira?

Alguns meses depois ele morreu do coração. Não o vi doente, nem no caixão, não fui ao enterro. Ele se foi sem ter ido. Em 2008 escrevi num outro blog que tive sobre o que me aconteceu em seguida, como criei a teoria da fosforescência do pierrô para dar conta da morte que não pude ver. Relendo esse texto agora, fiquei impressionada com a persistência dessa fantasia ao longo dos anos. Quanto durou.

Dos dez aos 25 anos, sonhei com ele. As narrativas seguiam os mesmos plots: quando eu cheguei ele se foi; só faltava um passo e ele evaporou; eu cheguei perto e ele gritou foi você!; sei que ele estava ali mas uma luz me cegou. Houve uma quarta-feira depois da educação física que quis correr para casa para telefonar na casa dele e ouvir sua voz de novo. Algo me dizia que ele estaria lá. Só dentro do ônibus e já atravessando o rio Pinheiros é que lembrei; foi um sonho. Nele, a morte é que tinha sido um sonho e eu dizia “mãe, sonhei que o vovô morreu” e ela respondia “hahaha, ele vai te buscar amanhã, não fique na quadra com as meninas para não se atrasar”.

Cheguei a vê-lo morto quinze anos mais tarde. Seu corpo adquirira a forma zombeteira de uma gaveta bagunçada. Muita poeira, poucos ossos e suas velhas mechas de cabelo quase intactas na caixeta de metal.

*

Depois disso, evitei que a morte me enganasse outra vez. Sabia que era um empréstimo a fundo perdido, a morte leva e não devolve mais. Então me tornei eficiente. Tomei conta de corpos queridos enquanto o laudo não saía. Visitei mortos de amigos, os mortos sempre amarelos. Disse adeus a minha vó sentindo que era loucura pedir desculpas por deixá-la sozinha. Virei as costas e caminhei reto.

O que eu sei da morte, aprendi puxando as cortinas da esperança no além, no céu, no espírito. Essa vontade de continuar algo que já acabou quase me leva à loucura. (O analista soletrando devagar: “ele morreu e agora é com você”.)

Por circunstâncias menos graves, tenho conversado com minha filha sobre a morte. Morreu a bisavó japonesa, depois o peixinho beta, um sabiá desconhecido. Não é fácil decidir o que dizer, como explicar o fim abrupto de um ser. Mas não posso me furtar a descobrir minha própria maneira de explicar o mundo a ela. Não me servem as respostas sob medida que ouço por aí: quando morre alguém, a pessoa vira estrelinha no céu (mentira); as pessoas são feitas de corpo e alma, só o que morreu foi o corpo da sua bisavó, a alma sempre estará viva (quem pode saber?); foi melhor assim, ela estava sofrendo (e quem não sofre por saber que está prestes a morrer?). Não tenho a minha versão da história. Fico procurando.

Abro um romance de autor nacional. A página de créditos traz uma advertência que já li centenas de vezes, mas que agora me parece algo mais: Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção. É por aí. Talvez eu possa dizer que os mortos morrem e que nunca mais estar vivo outra vez é a morte, mas também seria mentiroso dizer que a morte cessa a existência dessas pessoas dentro da nossa cabeça. Advertência: Os entes queridos que fazem parte desta obra são reais apenas no universo da memória.

Quando ela me disse que faria o vô Belmiro acordar, eu agradeci. Ô, meu filhote, eu ia ficar muito feliz se você fizesse isso. Obrigada. Mas nenhum remedinho pode acordá-lo, porque ele não está dormindo, ele morreu. Isso é que é morrer: não ter nenhum remedinho.

(Não sei por que estou no tema, mas ainda falarei da morte por aqui. Volto ao blog em alguns dias.)

Morte #1

Eu estava com a cabeça no livro e por isso talvez tenha tido essa presença de espírito quando morreu o sabiá. Por conta do que a Ana tinha comentado com os alunos ao ver o jabuti passar, e porque isso é descrito com entusiasmo pela autora, eu também quis escancarar a morte de maneira a torná-la aceitável para a Aurora. Não se consegue isso com um sabiá e uns livros infantis; morresse um avô, e a gente teria que lidar com um monólito destroçado. Era mais simples, bem mais. A gente nem conhecia o bicho, ele provavelmente tinha morrido numa das árvores de casa e caído no chão. Bem na frente da varanda. Ela é que viu: o que é aquilo? Achei que era uma pedra com penas — e afinal isso é o quê?  Cheguei mais perto e tive nojo. Os olhos do bicho estavam vazados de formigas, uma varejeira subiu pra me enfrentar, drosófilas em bando. Corri pra dentro de casa animada: filha, vamos pegar uma caixa de sapato pra enterrar o passarinho. Não usamos a caixa porque o buraco era estreito, fiz com a enxada e com ela mesma peguei o passarinho e joguei lá dentro. Aurora tascou umas mãozadas de terra, comentou que tudo morre um dia até a gente mas só quando é velhinho e coroca, e fim.

3 anos

Foto de Ivana de Arruda Leite

Foto de Ivana de Arruda Leite

 

 

Credencial

O melhor de trabalhar em revista era poder transformar os sonhos pessoais em pautas e conseguir acesso a pessoas e lugares que, sem credencial de imprensa, eu não alcançaria. Na pedagogia é meio assim também; os estágios obrigatórios me dão a desculpa ideal para conhecer escolas e educadores que admiro ou que tenho curiosidade de ver de perto. Acontece, como aconteceu tantas vezes na revista, de eu chegar lá e descobrir que a pessoa que eu endeusava era, na real, um ser humano bem maomeno, mas de todo modo tenho ficado contente com a minha credencial e as coisas que tenho feito com ela. Contente não, EXAUSTA. Assim que é bom.

Contrastante

Há três vestidos sobre a cama. Dois de veludo com mangas bufantes, um de tricoline azul-marinho. Ela não quer. Então qual?, pergunto sabendo que não há mais nenhum no armário. O vestido da festa junina, ela responde, o da festa com chapéu de trança. Ela quer ir de caipira na festa de casamento do titio. Termina não fazendo tanto frio como eu pensava, e me arrependo de não ter permitido. Desses arrependimentos que nem toda a alegria evocada pelo resto de glitter no cabelo nos deixa esquecer. Ah, putz.

Zero

Um dia no banho ela me perguntou: cadê o seu pipi? Eu disse que não tinha pipi. Mas o papai tem pipi. Sim, respondi, é verdade, e também o titio e o Rodrigo, o Leo e todos os seus primos. Depois de um silêncio curto, em que ela parece ter pensado a respeito, concluiu: quando eu virar papai eu também vou ter pipi. É uma verdade lógica. Eu disse: é uma verdade lógica. 

Deu pela falta do jabuti no quintal. Expliquei que a Juju não morava mais na nossa casa, pois a mamãe não cuidava muito bem dela e agora tinha encontrado uma casa nova para ela morar com um viveiro especial, um lago, plantinhas. Mas quando a Juju vai voltar? Ela não volta, nós é que vamos visitá-la. Aurora foi até o pé de hibisco do quintal, colheu uma flor e me mostrou, ignorando o que eu acabara de explicar. Quando a Juju voltar, ela vai comer essa florzinha. A ideia de que o lugar do jabuti agora estava vago era insuportável. Quando a Juju voltar isso e aquilo; aqui é onde a Juju vai ficar quando ela voltar etc.

Assistíamos a Rei Leão na tevê e então o pai do leão morreu. Ela me abraçou: cadê o papai dele? Morreu, filha, agora o papai dele só existe na imaginação, sempre que tiver saudade o leão vai poder imaginar o papai dele, lembrar como ele era. Mas mamãe, ele vai salvar o papai dele e aí o papai dele vai ficar bom de novo. A irreversibilidade da morte era inaceitável.

Perguntou do meu vovô: como ele chama? Eu tinha dois vovôs, um chamava Pedro e o outro Belmiro, expliquei, assim como você tem dois vovôs. É, eu tenho o vovó isso e o vovô aquilo. Pois é, eu também tinha dois vovôs. E cadê os seus vovôs? Os dois já morreram, quando eu quero falar com eles eu lembro deles, imagino que nem o leão, porque não posso mais falar com eles de verdade. Mas mamãe, eu vou lá no vovô Belmiro e vou sarar ele e você vai poder falar com ele. Ah, isso ia ser muito bom, filha, eu ia adorar ver de novo o vovô Belmiro, que era o grande amor da minha vida. Mas mamãe, ele vai ficar bom e aí ele vai adorar eu. Isso é verdade, se o vovô Belmiro conhecesse você ele ia te adorar muito. Mas mamãe, eu vou sarar ele. Ah, querida, é uma pena, mas ele já morreu, ele dormiu um dia e não acordou mais e nem vai acordar, isso é que é morrer. Mas mamãe, eu vou acordar ele, quer ver? Acorda, vovô!

Anoto esses flashes e penso na aversão dela à ausência, ao nada, ao zero, ao não. Em seu mundo, tudo parece ser reversível: se A é B, então B pode ser A. O que não acontece é A ou B deixarem de ser. Se a Juju foi, ela volta. Se alguém morreu, ressuscita. Se papai tem pipi, eu viro papai e também ganho um. O que está por trás dessa insistência na reversibilidade? Afirmar a existência; as coisas têm de ser. 

Freud parece ter presenciado o mesmo fenômeno no discurso das crianças, mas o utilizou para fundamentar sua teoria da sexualidade infantil; isto é, as crianças encarariam o pênis como uma presença, o que é, ao passo que a vagina, por comparação, seria a ausência de algo, ou o não-pênis. A criança partiria do princípio de que todos têm um pênis e se não o encontra onde deveria estar é capaz de alterar a ordem natural das coisas para garantir que seu argumento não será invalidado (é mais fácil eu virar papai do que não ter um pipi).

Fico me perguntando se a hipótese da presença do pênis deve ser tratada como evidência da importância do pênis para as crianças. Não poderia ser um exemplo dentre outros de uma certa aversão basal à ausência? Ou à falta de lógica da ausência? Talvez possamos deslocar a questão para a operação mental que permite à criança diferenciar pênis de vagina. A capacidade de comparar coisas segundo um critério seria, nessa linha de pensamento, o “começo de tudo”.

Estou apenas conjecturando que a percepção da presença e da ausência não precisa necessariamente levar a uma cristalização do objeto comparado. A criança supõe que todo mundo tenha pinto assim como supõe que quem morre ressuscita e que o que vai volta.

Estou errada? É possível, até porque não chego a fazer cócegas na psicanálise nem a conheço tão a fundo para discutir sua legitimidade. Mas tenho plena consciência de que Freud argumentava com um propósito claro de construir alicerces para uma teoria que pretendia provar. Ou seja: partia da conclusão para chegar às premissas. Não é bem que ele tenha deduzido a psicanálise, muito (muito!) ao contrário, como é do conhecimento de todos que já o tenham lido alguma vez. Freud torce os fatos para lhes dar sentido. E que bom que fez isso, porque é assim que se faz ciência, é assim que se faz filosofia e é assim que se constrói conhecimento: formulando hipóteses e tentando comprová-las. Não há isso de iluminação, descobrimento etc. Freud é antes de tudo um criador. 

Mas quando se observa uma criança não é difícil notar que a fixação no pênis é reflexo de uma operação mais importante, a adição. Afirmar o positivo, o acúmulo, o 1 ao invés do zero parece ser realmente a base das suas hipóteses. A morte e a ausência não são dados da natureza, e é preciso concebê-las antes como hipóteses para que se possa compreendê-las posteriormente como fenômenos. Daí decorre que a investigação infantil acerca do pênis, da morte e da ausência é como que um fenômeno secundário precedido pela hipótese lógica de que tudo deve permanecer estável.

Conceber a ausência talvez seja a operação mais impressionante da mente humana. O vovô Belmiro não existe mais — quem pode lidar com uma coisa dessas?

Saudade é já, já

Faltam menos de duas horas para você chegar de viagem. Imagino a cena: o carro da vovó entra na garagem, estaciona. Alguns cumprimentos e me volto para você, está dormindo na cadeirinha do banco de trás, suada, amassada. Uma ternura velha conhecida – será este o sentimento que propagou pelo mundo a ideia de “amor incondicional”? Trata-se de um calor na verdade – vai subir num átimo dos meus pés ao peito, e não haverá pensamentos concorrentes. Vou desconectar o cinto de segurança e puxar a maçaroca mole que é você dormindo no carro para fora dele. O abraço, o cheirinho tão bom. Dali te levo pra minha cama, onde observo você dormir por quase uma hora. Quando pego no sono também você acorda e dá início a algum assunto interessante. Você gosta de manga? Vou contar um segredo importante: o lobo mau mora por perto e a chapeuzinho vai pela floresta. Rio e desrespeito sua vontade de evitar uma chuva de beijos, te chamo de Bolo-Bolo três vezes, você corrige: eu não sou Bolo, eu sou a Aioia.

oh!

leio um poema na piauí e penso em você, que não lê e tem só dois anos e poucas chances de achar o poema incrível, esse poema que nem toda gente da minha idade acharia bom — mamãe, quantos anos você tem? trinta e cinco, gatinha. assim? (mostra o três) tem mais uns dedinhos na minha idade, amor. hoje é o seu messário, mamãe! oh, como eu te amo, filha! então começo a recortar o poema da revisa e me vejo realmente perplexa diante da dúvida sobre a cola mais durável, a pritt é sempre tão ruim, mas a tenaz não seca nunca, e finalmente desisto de ambas, como aliás desisti da canetinha para registrar suas aventuras no diário da aurora, que fazemos juntas, porque soube por uma amiga que os desenhos da filha sumiram com o tempo, e não queremos perder nada, a ida ao zoológico, as brigas que temos e até as reflexões que você faz, resultando num diário misto de você mesma com a minha invenção de você. no final, resolvo que minha coleção de revistas velhas vai ser muito interessante quando eu tiver morrido, então não é de bom tom recortar o poema, melhor anotá-lo. e por aí você vai vendo como é embriagante a coisa toda. eu, que sempre gostei de drogas leves, fui logo escolher você, uma poção, um porre de fantasia. oh, como eu te amo, filha!

?

Mamãe, eu posso levar a bexiga no casamento?

Que casamento?

O seu.

Eu vou casar?

Não, você já casou.

Eu casei?

É. Com o seu trabalho.

 

Saber ler

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Ao olhar para esta foto, o que você vê? Um bicho azul de borracha com um pano na cabeça e uma rodela amarela enfiada na orelha. Certo, você tem razão. Mas ao mesmo tempo, não entendeu nada. Porque no mundo da brincadeira de Aurora a descrição física dos objetos não conta muito. O animal se chama Vanessa, e é um pula-pula confortável em que ela cavalga sempre que tem vontade. E o pano representa uma toalha, que encobre os cabelos (inexistentes) da Vanessa, que acaba de sair da piscina com sua boia amarela. E não é lindo o fato de a boia estar na única parte do corpo de Vanessa em que era possível mantê-la presa — mesmo que se trate de uma orelha, onde teria muito pouca utilidade caso fosse realmente necessária para fazer a burrinha boiar?

Quando eu crescer, quero ser boa leitora de brincadeiras. Taí uma habilidade realmente importante e desafiadora.

Ditarroso

Esses dias me veio o nome certo: salto de desenvolvimento. Tentava lembrar essa expressão há dias, sem sucesso. Aurora vinha apresentando sintomas claros de desequilíbrio motivado pela aquisição recente de novas habilidades, tornara-se repentinamente insegura na minha ausência, voltou a se acordar durante a noite, e, pior, a sentir fome de madrugada. Para mim estava claro, tratava-se de um ______________. Como chama?! Fiquei alguns dias nesse estado de suspensão vocabular, mas conduzi bem o problema na prática. Depois de dois anos e meio, aprendi que nesses casos só se pode esperar passar. É cansativo, mas como nas crises anteriores, o fim do ciclo trouxe boas novidades. Aurora começou a contar histórias. Com muito mais frequência, agora brinca e fala sozinha, o que demonstra que se faz acompanhar de um universo simbólico que próprio.

Também passou a dar nomes às bonecas. Semana passada saiu-se com “Preciosa”, para uma neném de feltro, e ontem desenhou uma minhoca chamada “Ditarroso”. E de tudo isso só consigo concluir que sou mesmo uma privilegiada por ter em casa uma pessoa que faz na prática tudo aquilo que, na faculdade, conhecemos como teoria, suposição e estatística. img018 (Ditarroso é a carinha azul com dois olhos e boca abaixo do algarismo 3. Tanto ele como as palavras escritas em rosa foram escritas por mim e registram o que Aurora disse sobre seu desenho ou me pediu para desenhar.)

Pics

Lugar Maluco é o SESC Pinheiros. Ombus é ônibus. Trem é metrô. Eu gosto tanto de falar a língua dela que acabo chamando meu sapato de tatá, o que gera constrangimento quando ocorre fora do contexto íntimo. Pois eu chamei de tatá o sapato do meu pai, que por mais íntimo que seja, calça 43. Veja: 43 inviabiliza completamente o emprego do termo tatá. Se acrescentarmos o fato de que se tratava de um calçado de couro preto e formal, bem: aí já dá pra se sentir ridícula.

Não sei se já contei essa história, mas ela subiu na mesa onde eu estava trabalhando e, cansada de tentar chamar a atenção, mandou ver num jogo simbólico pra cima da fruteira. Em minutos a criatura tinha vestido a redinha do melão na cabeça e consolava a frutona com as seguintes palavras: “A mamãe vai passar remedinho. Não chola, não vai doer. Tá? Tá bom?”. Fez um carinho no nenê e só não o pegou no colo porque, bem, ele era um melão.

De posse de sua mamadeira, invadiu o banheiro, sentou no banquinho de plástico e ficou lá, sem falar uma palavra, mamando e assistindo a mamãe tomar banho. Só.

Agora chegou a tal da balança, e todo santo dia ela acorda com a mesma ideia: levar a Jordana e o Toc-Toc pra balançar. Estamos no outono, e às 6h15, quando a situação se apresenta, é praticamente neve na balança, ou pocinhas de sereno trincando de frio sobre o assento. Pois ela colocou gorro na boneca, muniu o cachorro de pelúcia (são uma dupla, a Jordana e o Toc) com um pano gigante e lá se foi, toda descabelada e SEM gorro, balançar seus nenês. Agora eu me pergunto: cadê a máquina fotográfica capaz de registrar tudo isso? Sobra pra escrita, não tem como. Só assim a memória dá conta de organizar num bloco conciso o orgulho contraditório que senti por ser desobedecida pela minha filha e a imagem coloridíssima da brincadeira de balança sobre tela de outono gelado. Isso aê, Xô, impõe a tua fantasia à mesquinhez da prática, agasalha a boneca e pega VOCÊ o resfriado, mamãe tá gostando. Mas às mães não é dado o prazer estético contemplativo. A mim cabe o papel do assistente de palco que avisa a bailarina voando que o teto é cenário. Volta, volta: aí em cima é tudo guache. Tasquei-lhe um troço na cabeça e ponto. (Que merda.)

 

Coletivos

Desde que passei a sair de manhã para ir à faculdade, ela me pergunta se estou indo para a escola. Digo que sim, e então ela passa a enumerar tudo aquilo que NÃO tem na minha escola: 

– Areia;

– Escorregador;

– Suco;

– Amigos.

Concordo com ela e pergunto como ela sabe que não tem nada disso lá. Ela então muda de ideia e diz que na escola da mamãe tem “amigos”, e capricha na marca do plural por algum motivo ainda muito misterioso para mim. O fato é que ela intui que num ambiente de gente grande não tem areia, escorregador nem suco. O que não consigo entender é como ela pode achar isso atraente, mas pede todos os dias para ir comigo ver os meus amigos da escola. E de ônibus, “numa cadeira sozinha”. Depois completa: “Eu não sou grande, mamãe?”. Não filha, ainda (bem que) não.

Pai

Estou lendo na rede, é fim de tarde, e me interesso por algo que acabo de pensar sobre a paternidade. Pretendo anotar e desenvolver essa intuição, prevejo um processo longo e quase desanimo quando me dou conta de que o tempo está acabando. É uma ofensa: escrever deveria ser meu espaço de organização e experimentação, minha ginástica privativa que não presta contas ao desejo de mais ninguém. No entanto, não tem sido assim.

Como tantas vezes, preciso correr para descobrir do que quero falar e moldar o discurso que emergirá daí, o que vou escrever. Preciso fazer isso antes que minha filha chegue do passeio com o pai, das cinco ou seis horas na semana que passa aos cuidados dele. Somos separados.

O momento da saída é aguardado por mim com ansiedade. Espero que eles saiam para colocar em prática tudo aquilo que, nos dias anteriores, havia planejado para essas horas. Cinema, amigos, livros, sono. Quase sem exceção, essas horas me são expropriadas pela prática do atraso. Quanto mais o pai demora a se apresentar, menores ficam minhas horas de não ser mãe. Hoje as seis horas começaram duas horas depois. As quatro que me restam devem, portanto, ser aproveitadas com urgência.

Dá tempo de ler um bom trecho do Solomon, o gigante de oitocentas páginas. Prossigo nele até ser cooptada para o pensamento da paternidade e daí para a inevitabilidade de escrever. Escrever para pensar, pensar sem deixar escapar, criticar enquanto isso. Não terei tempo de terminar nada, nem leitura nem rascunho, e talvez por isso comece a escrever sobre nenhum dos dois, e sim sobre a precariedade que insisto em não naturalizar. É precisamente um desafio.

Levanto e fecho o livro. Abro o computador e começo a copiar o trecho do livro em que tudo começou. Sobre o que vou escrever, afinal? Como se faz a arqueologia da intuição? Puxo pela memória, foi na página 808:

“Nosso amor por nossos filhos é quase totalmente circunstancial, mas está entre as mais fortes emoções que conhecemos. Os casos narrados neste livro [Longe da árvore] estão para meu amor por meus filhos mais ou menos como as parábolas estão para a fé: histórias específicas que convertem em verdade as maiores abstrações. Sou o pai que sou por causa das narrativas épicas de adaptabilidade contidas neste livro.”

Quem fala é o autor, já não mais o pesquisador empático que por mais de vinte anos colecionou entrevistas com pais de filhos excepcionais, seja por uma deficiência física ou mental, seja por um traço afetivo que os tornou irreconhecíveis aos olhos dos pais. Aqui fala Andrew Solomon, pai de um recém-nascido enfim dado como saudável após uma traumática conversa em que o pediatra o adverte para uma chance de hemorragia cerebral. Seu filho está bem. Seu filho é saudável. Solomon então se volta para as oitocentas páginas anteriores, para os casos que coletou, pesquisou e compreendeu e se identifica com todos os pais que não tiveram a mesma chance que ele de suspirar aliviados. Todos os pais de filhos excepcionais, galhos que geraram frutos estranhos, os “frutos que caíram longe da árvore” que dão título ao livro.

Ele descobre, aliviado, que está não está no grupo de pais que pesquisou, e no entanto, a despeito de seu filho perfeito, é por conta das narrativas épicas de todos esses pais de sonhos interrompidos que ele se reconhece. Nas horas imediatamente anteriores, ele teve tempo de experimentar o medo excruciante de ser pai de um filho incapacitado, e por obra das narrativas que há vinte anos vinha recolhendo, foi capaz de se dar conta, mesmo antes de saber que não havia hemorragia alguma em seu bebê, que ele o amava desde já e mesmo assim.

Ainda não sou capaz de decifrar a conexão feita por mim entre as horas que escorrem e me apressam e a descoberta do fator incondicional do amor de Solomon. A empatia pelo discurso, o acesso ao que não pode ser negado a um pai, mesmo quando lhe é negado o próprio filho – ou a projeção pré-natal que ele tinha desse filho, agora dado como perdido em um mundo no qual o pai não pode entrar. Seu filho é diferente. Seu filho é outro. Ainda assim, ele é meu filho.

Solomon leva mais de oitocentas páginas para mostrar que o amor incondicional pelo filho defeituoso é uma construção paciente e dolorosa, e mais que tudo uma escolha corajosa que nem todos são capazes de fazer. A cura do filho não está no horizonte das incapacidades que ele analisa no livro. São pais e filhos que, portanto, aprendem a amar aquilo que a cultura não ama e não ensina a amar. Chegam a ponto de desistir, mas chegam também a perceber que, ainda que pudessem alterar o curso todo de uma vida com a incapacidade, prefeririam não mudá-lo. Pais que amam seus filhos porque são o que são.

Retomo: a notícia de que seu filho era saudável chegou quase tarde demais para Solomon, pois antes ele já havia flagrado seu próprio amor pelo filho nascer. Esse amor construído não na diversidade experimentada diretamente, mas no manejo com as histórias de outros. Ao conhecer tantos pais que amavam nas adversidades, Solomon adquire um certo preparo, uma prontidão para amar incondicionalmente. É ao mesmo tempo uma prova de amor pelo filho, mas também pela palavra e tudo aquilo que ela constrói. Algo se esclarece: percebo agora que me comovi com o texto pelo que ele traz de construção lógica, retórica e, principalmente, estética. Solomon propõe um mundo com intermediários potentes entre o que há e aquilo que sabemos haver. A palavra. A palavra. Quero pegar o pensamento, mas ele escapa.

Tento de novo, quem sabe agora. Repasso em silêncio os motivos de minha admiração pelo autor, quem sabe entenda melhor. Solomon é um escritor magnífico, um lógico irrefutável e um humanista no sentido tradicional do termo – é empático. Mas há algo que faz dele um escritor de força especial. Tanto Longe da árvore quanto seu livro anterior, O demônio do meio-dia, falam de amor. Esse talvez seja o grande tema de Solomon, a base da sua abordagem da doença mental (“a depressão é uma falha no mecanismo do amor”) e também a base de sua abordagem da paternidade. E o que vem a ser esse conceito? Em seus livros, o amor é aquilo que se constrói na experiência. Sou incapaz de amar: sou incapaz de viver. Sou incapaz de sair de mim e deixar minha existência escorrer na linha do tempo. Amar seria então uma experiência no tempo, um vir a ser calcado na crença absurda de que há um futuro. O deprimido não crê no futuro, experimenta um eterno estar sendo. Um filho que não é o que o pai sonhava impõe uma escolha: negar ou acreditar que há um porvir. Ainda que para sempre a doença vá estar presente. Desejar o futuro, apesar da doença: isso pode ser amar. Isso pode ser saúde. É incrível, porque, veja: o amor não reside em nada em si, num objeto realizado, mas na perseverança em amar. Seria esse o encanto de Solomon?

Sigo pesquisando. Faltam poucos minutos para o fim do meu dia só, e ainda não entendo o que pretendo dizer. A paternidade subitamente me parece uma possibilidade vasta, um processo construído com a solidez de um dia após o outro. Ao menos a maternidade é isso, ou a minha é. Dessa experiência única não encontro elementos para explicar como é possível escolher uma paternidade flutuante, esporádica, entrecortada. Talvez eu precise pesquisar, como Solomon fez, centenas de pais que se construíram na distância física de seus filhos, na opção por estar com eles em momentos pontuais, pré-determinados pelo conforto das condições externas, que “permitem” ou “impedem” que eles exerçam sua paternidade. O que há nesses pais que me escapa?

Certamente haverá um deserto inteiro se movendo à minha frente, e eu é que não sei ler os ventos, a poeira, os desenhos flutuantes das montanhas – mas não entendo a escolha por uma tal paternidade. Como construir um relacionamento afetivo a não ser cotidianamente? A não ser apesar de todos os empecilhos, choros, momentos de raiva, tédio e frustração?

Gostaria de mais algumas horas sendo uma mulher sozinha, lendo e escrevendo em casa, mas não trocaria de posto com nenhum cuidador que estivesse menos presente que na maioria os momentos ruins e dos bons. Quando me separei do pai da minha filha experimentei uma dor difusa que, entre todos os seus elementos, continha um detalhe inusitado, de todos os mais difícil de combater: sentia que ele estava perdendo alguma coisa. E esse algo era tempo. Era um sentimento de empatia por ele e por isso eu o negava, queria ter raiva apenas, raiva limpa e ponto final. No entanto era evidente que alguma coisa maravilhosa estava acontecendo bem ali e sentia pena por ele não estar ali para ver. Ou não lutar para estar ali.

Quando ela fixou o olhar em mim pela primeira vez fiquei tomada de uma alegria orgulhosa, senti que com aquele pequeno acontecimento todos os meses que investi naquela pessoa tinham rendido uma colheita. Uma felicidade muito grande e inédita. Olhei para o lado e não havia com quem compartilhá-la. Ele sabia pelo que tinha optado ao sumir? Porque quando não se vive a maternidade ou a paternidade, parece que é mais simples ignorá-la. Ficar é, em si, experimentar uma forma de amor que acredita que um dia pode ser melhor. Mas esse seria o Solomon. Seria preciso entender os outros pais, mas não está na hora de gastar as minhas horas. Ainda quero o meu tempo completo.

Desescolarização

Fala-se muito da desescolarização na internet. Vejo amigas animadas com essa perspectiva, vejo intelectuais da educação contra-argumentando de maneira apaixonada, mas para mim trata-se de um problema ideológico. A desescolarização vem na esteira do reavivamento das ideias da Maria Montessori, da adesão acrítica do Attachment Parenting, de um certo ativismo pelo parto natural, ainda que essas práticas não coincidam com a realidade de um país de maioria pobre e iletrada. São representantes da classe média que abraçam e defendem com paixão a “coragem” de não matricular os filhos na escola — ou que propagam o quarto sem berço, o sling full time e o inegável bem maior para o bebê e a mãe que caminham nos primeiros momentos o mais unidos e naturalmente possível. São todas causas e intenções muito boas, mas não podemos perder a noção de que dentro da realidade do Brasil do SUS e da escola pública de hoje são, antes de boas práticas, privilégios. Cama compartilhada, grande novidade! Mães para quem dei aula em supletivo dormiam com seus muitos filhos na mesma cama porque não havia outra. E não, elas não achavam isso bacana. Nós podemos praticá-la, mas seria arrogância propagar a ideia de que essa prática seja “melhor”, porque ela só pode ser melhor do ponto de vista de quem tem opção. O mesmo vale para o “montessorianismo”: trabalhar a autonomia é o que as mães que precisam deixar seus filhos sozinhos em casa enquanto trabalham vem fazendo há dezenas de anos. Para essas famílias, autonomia é sobrevivência. Não se come se não se sabe onde encontrar a comida. Portanto colocar o colchão no chão ou escadinhas para o seu filho alcançar a pia só vale se você tem cama e pia. Para quem não tem, é preciso educação, escola, tutela. E não montessori. E assim por diante. Mas com relação à desescolarização, que é meu ponto aqui. Do ponto de vista de uma família cujas estantes são preenchidas com panelas, a desescolarização é uma tragédia. E carrego na tinta pelo seguinte: já sabemos hoje o suficiente sobre alfabetização (até mesmo em termos biológicos, se se quiser com isso dizer que a prática não é argumento forte o bastante) para saber que m-u-i-t-o-s alunos da escola pública que fracassam ano após ano até se tornarem soldadinhos da massa de analfabetos funcionais vêm de famílias com pouco ou nenhum contato com a cultura letrada, e portanto o seu fracasso escolar reflete o fracasso da escola em oferecer justamente essa cultura. Que cultura é essa? Contextos em que a língua escrita apareça como parte integrante do cotidiano, seja por conter a materialidade de um livro na sala, seja na modulação de registros que a língua falada tem, resguardando um certo conjunto de palavras e sons que imitam o que se lê nos livros. Quando lemos para uma criança que ainda não sabe ler, quando damos a ela um livro de presente, não estamos dando apenas um conjunto de palavras impressas e um punhado de desenhos que acompanham. Estamos dando um objeto cultural que vem sendo utilizado para transmitir conhecimento há 15 séculos na nossa civilização, estamos dando a informação de que esse objeto deve ter algo de muito interessante, porque do contrário não seria um presente. E estamos dando uma infinita gama de “dicas” do que seja a palavra escrita. Para uma criança cuja casa não tem um só livro, um só impresso de qualquer espécie, nem narrativas orais que reflitam a maneira muito própria de contar uma história escrita, então a escola é que tem que fazer essa “preparação”. Se propomos a desescolarização como algo bacana, é porque somos de uma classe social que tradicionalmente cultua a língua escrita. Esquecemos que para nós a alfabetização — porta de entrada na nossa cultura — é quase uma consequência natural. Aprenderíamos, talvez, apesar da escola. Mas muitos não. Sem escola, nunca serão agentes dessa cultura. A escola é ruim? Pior sem ela. Você pode cultuar a desescolarização individualmente, problema seu. Mas universalizar isso como sendo “uma coisa bacana” ou interligando isso a falsas crenças de libertação e desconstrução dos discursos opressivos… bem, isso é ingenuidade. São ativismos e posições que, se tornados efetivos, só fazem aumentar a segregação.
Esse vídeo com a Emilia Ferreiro esclarece alguns pontos sobre a importância das experiências leitoras anteriores à alfabetização.

http://www.youtube.com/watch?v=0YY7D5p97w4&list=PLfarCWFbZ2YYKgXaI2MqzJ8u431FVitp2

 

Cípere

Junto com uma série de observações “científicas” que venho fazendo da minha filha — e coloquei entre aspas porque não pretendo que se confunda aqui objetividade com ciência, ou intuição com objetividade, ou hipótese interpretativa com hipótese informada, e assim por diante — uma mexeu bastante comigo. Aconteceu ontem à noite, como de costume de repente. Ela subiu na minha cama e avisou: Mamãe, eu sou a Banca Neve. É, meu bem? E você é o cípere. Oi? Cípere. Desculpa, gatinha, a mamãe não entendeu, você repete? Mamãe, eu sou a Banca Neve. Ah, tá certo: você é a Branca de Neve. E você é o Cípere. O “cípere”… quê? Silêncio. Ela não quis repetir e eu realmente não entendi quem eu era. Mas, calma, lógico: eu sou Príncipe! Aurora: você é a Branca de Neve e eu sou o Príncipe, né? É! O Cípere. Isso, eu sou o príncipe, entendi, desculpa, a mamãe confundiu mas já entendi. Oi, Branca de Neve etc. A brincadeira prosseguiu e eu paro o relato por aqui. O que me interesse é a palavra “cípere”. Por (muita) sorte eu havia tido justamente anteontem uma oficina de alfabetização na faculdade, e foi ali que a professora comentou conosco das hipóteses de leitura e como cada uma dessas hipóteses, ou sistemas, dão nome a cada uma das fases pelas quais todo ser humano passa no período em que está aprendendo a ler e escrever. Um exemplo de um garoto identificado como pertencente à fase silábica. Ele escrevia “camelo” da seguinte maneira: CML, que equivale sem distinções a AEO, para a mesma palavra, já que entende-se que em qualquer dos dois registros o que está em jogo é que a criança entende um valor sonoro (a sílaba) como um sinal gráfico. Três sílabas, três letras. Mas voltando à Aurora: para ela, “príncipe” é “cípere”, ou ao menos essa segunda é suficiente para exprimir a primeira. Pra mim, não era suficiente, tanto que mesmo no contexto do conto de fadas da Branca de Neve eu não fui capaz de compreender quem era o segundo personagem. Mas de posse de algumas intuições alfabéticas, depois entendi que “cípere” era uma espécie de príncipe, só que com as letras fora do lugar. Como se fosse um quebra-cabeças de sons que ela montou usando as figuras mais importantes, sem se incomodar com a ordem. Tem “cê”, tem uma tônica em I, tem “pê” = cípere. Genial. Depois que ela foi dormir, fiquei tentando imaginar como se chama essa transposição da teoria da aprendizagem da leitura e da escrita para a linguagem verbal. Me pareceu com “elão” e “assis”, nomes que crianças conhecidas minhas deram para “leão” e “saci”. No fundo, se soubermos ouvir e ler, as crianças podem ser consideradas pertencentes ao universo da palavra bem antes do que estamos dispostos a reconhecer.

Cípere…

Oi, isso

Não tem preparo vocal que dê conta: é muito personagem pra interpretar. O garfo, a beterraba, o penico: todo mundo tem que falar com ela. A senha é: “Oi, penico!”, “Oi, carninha!”. Se eu não respondo, ela repete: “Oiiiii!”, até que eu tome vergonha na cara e responda: “Oi, Aurora, eu sou o penico, tudo bom?”. De maneira que tudo agora tem voz. Brincar de boneca é complicado. É tanto presente, lembrança, coisa velha de outra criança que acaba vindo parar aqui, e cada um com uma voz diferente, que não consigo mais inventar. Duas vozes, ok; cinco, é demais. Em todo caso, a gente ia levando. Só que um novo amiguinho surgiu no mundo, o Generiquinho. Pra qualquer coisa de que ela não saiba o nome, a convocação é a mesma: “Oi, isso!”. Era um pedaço de mamão no chão da cozinha. Não teve jeito, lá fui eu pro palco outra vez. Isso é que é Teatro do Absurdo, meu país. O resto é palhaçada.

Bolo branco

(Minha família sempre contou muita história, especialmente a tia, que se lembra de detalhes que os irmãos já não podem negar ou reiterar.)

*

Não era raro que numa festa ou conversa de quando se lava a louça a mãe e a tia começassem a puxar um assunto velho, as músicas do tio Manuel, por exemplo, que na memória delas não trabalhava, era conquistador e “fez mal” a uma moça do bairro que se apaixonou por ele.

Essa história está fixada no repertório narrativo familiar. Foi contada inúmeras vezes e em diferentes formatos, ora como assunto no meio de outra conversa, ora como história com público cativo. Eu gostava quando mãe e tia alteravam o enredo sem perceber, ao sabor dos próprios humores ou do clima do momento. Depois que a vó morreu, era comum ouvir a história do tio Manuel em tom sombrio. O que ele fez com a Emengarda (a virgem se chamava assim) foi horrível, desvirginou e depois deixou de lado. Elas diziam “usou e jogou fora”. A sinopse era a mesma, só que agora a personagem principal era a garota. Decaída de sua posição de menina de família, Emengarda  passou a motivo de escárnio na Lapa, cujos moradores não demoraram a adotar o apelido, dado pelo tio Manuel, de Horrorosa.

Às vezes o tema central não é a história em si, mas ela surge. “Quando foi mesmo, Tata?”, “No dia do aniversário da filha da Tônia”, “Que Tônia?”, “A mãe da Emengarda Horrorosa”, “Ah! Lembrei!”

*

Contavam-se também muitos causos sem emoção, dos quais gosto de imaginar o final, as consequências. Diz a tia que certa vez meu avô abriu o jornal e mostrou um anúncio: a imobiliária tal estava doando terrenos para os leitores que acertassem uma enquete. A tia diz de que o vô não se interessou, porque os terrenos em questão ficavam próximos do rio Pinheiros, eram encharcados e mais pareciam um mangue. Um desses aí, nem de presente!,teria dito o vô, abandonando o jornal em cima da mesa.  

Adoro essa história, ela me lembra os contos de fadas em que um personagem dá um passo em falso irrelevante, e depois tem que se ver com uma maldição desproporcional, que será cobrada dos seus descendentes. O jornal ofereceu uma chance de ouro para o meu avô, um representante comercial de peças de automóvel que estava sempre duro. E ele não percebeu que se tratava de uma magia, a desperdiçou, e seus descendentes viveram para sempre sem um terreno no Alto de Pinheiros. Porque, meus amigos, o mangue era onde hoje se erguem aqueles casarões perto da praça do Pôr do Sol. Já imaginou?

Tem também as histórias mais nebulosas, da época da pobreza, na qual houve mesmo passagens que não posso citar em público a pedido de minha mãe, mas que parece ter acontecido inteiramente num cenário cinza. A única coisa limpa e destacável dos cenários em que todas elas aconteceram são as freiras, limpas, passadas, esticadas, secas. O contrário de tudo que mãe e tia viam em casa. Esses demônios, que amarravam a mão esquerda da canhota para obrigá-la a escrever com a direita, que torturavam as duas mais pobres da classe porque seus pais não davam presentes como os que outros pais, mais bem fornidos, ofereciam – porcos, correntes. E bolos brancos.

Os bolos brancos. Nas histórias de bolo branco eu me perco imaginando. Em todo caso, um aparte explicativo: naquela época, e acho que falamos do final dos anos 40, não tinha essa de bolo infantil. Aniversário era comemorado como festa de adulto, com bolo branco. Não tinha tema, enfeite, brigadeiro. O lance era parabéns e bolo. Por que branco? O que vou dizer não tem nenhum fundamento científico, mas pelo que conheço das histórias de bolo branco sei que só podia ser assim. Pense numa época em que não havia pasta americana e, mesmo que houvesse, uma época em que a pasta americana seria considerada cafona. As boleiras faziam os confeitos com coisas que se pode arranjar em qualquer casa, manteiga integrava muitas receitas, e limão, laranja e doce de leite consistiam nas matérias primas para dar sabor. Tente imaginar um mundo sem frutas vermelhas. Esse mundo é branco. A cor da riqueza, da limpeza, da discrição, do refinamento. Não havia o clean, não confunda branco com simplicidade. A riqueza era de peroba contra um fundo branco. Pense num pão de ló amarelo-claro, batido na mão, macio, assado em forno à lenha. Esses bolos que se batia enquanto as crianças faziam maldades com passarinhos no terreiro. Porque nesse tempo os quintais não eram gramados, não usava isso de grama, lajotas, o quintal era de terra dura, batida como se diz, e sempre um pato ou outro saía correndo das brincadeiras e se escondia nalgum lugar onde um cachorro, um gato, um papagaio já haviam estado antes. Aquela época cheirava a xixi e carne de porco, e soava a gritos de uma casa à outra das velhas que batiam o bolo do lado de fora. Então esse é o mundo onde o bolo branco se destaca. Ele é reto, ele é branco, ele é chique: o pão de ló é um bolo de festa.

Para se conseguir a consistência ideal, é preciso bater infinitamente as claras em neve e sobre elas despejar uma mistura, também infinitamente batida e livre de grãos, de gemas e açúcar. A diferença entre um pão de ló e um bolo é a de um omelete comum e o feito com as claras em neve. Um é nuvem, o outro é o cansaço do dia cheio e um monte de restos na geladeira. Prefiro omelete operário, mas afirmo categoricamente que são distintos, e que se tivesse que vendê-los, cobraria mais caro pelo de neve. O mesmo para o pão de ló. É um bolo fofíssimo, delicado. Deve ser deixado do lado de fora do forno para esfriar, pois se deixado dentro, resseca. Sempre é assado em fôrma retangular, grande, tamanho família. Depois deve ser cortado ao meio, de maneira que se possa empilhar uma metade sobre a outra, formando um retângulo alto. No meio, uma camada de doce de leite. Se fosse para as freiras, então não se devia economizar, e uma generosa camada de geleia de laranja era espalhada. Recheado e empilhado, o pão de ló é agora um prédio de dois andares, mas ainda não é branco. Para dar a ele uma imagem de solidez imperturbável, cubra-o com chantili. Inteirinho: laterais também. O monólito da pureza está pronto para ser oferecido a quem se quer impressionar. O bolo fica na geladeira. Imagine um tempo em que as coisas não duravam cinco dias e derretiam no calor. Nesse tempo, um bolo branco era sinônimo de bom gosto. 

Voltando à escola, as freiras eram canalhas. E ganhavam presentes dos pais, ninguém podia se furtar a dar alguma coisa de Natal. Além dos bolos e porcos e coisas que hoje não fazem nenhum sentido dar ou receber, guardei dessas histórias um sentimento ruim. Como se o desprezo e a raiva que as religiosas tinham por minha mãe e tia estivessem presentes em todos os detalhes do que me contaram. Nas barras das saias, nas lições de bordado, na Santa Ceia da diretoria, na obrigatoriedade de tirar os tamancos de madeira, cheios de barro pela caminhada, e trocar por chinelos de pano, para não riscar o assoalho de madeira polida e para que não se ouvisse um pio, uma risada, um ruído sequer no interior da escola primária. Esses sentimentos são a única memória sobre a qual não há polêmica. Não há sequer a possibilidade de escamoteamento. Não há, como se pensa, tanto poder do contador que aumenta um ponto. Sempre fica uma tinta imóvel, um borrão de ressentimento.

Outro aparte ainda: mais jovem, eu pedia para elas contarem e contarem a mesma coisa muitas vezes, e hoje sei que fazia isso para ver se em algum momento, de tanto contar, a história se tornaria mais alegre, para elas não sofrerem tanto assim. Mas são histórias do passado, e para uma criança pequena, como eu era, tratava-se de uma tarefa hercúlea salvar as duas da vergonha do passado de pobreza.

Sei a moral de todas as fábulas nas quais os animais eram elas: mulas de carga, bois de puxar carro, cães de guarda da família. E fico pensando se não é assim que se constrói uma teia de valores e um sentimento de identidade familiar. Porque de alguma maneira sempre soube o que seria considerado certo e errado por elas e pela família em geral, porque conhecia as histórias de suas infâncias e adolescência. Muitas das regras que elas, sem perceber, enunciavam nessas conversas eram as mesmas que eu, irmão e prima tivemos que quebrar.

Acho isso bom. Cresci na ficção, e sou testemunha até hoje das mudanças no pensamento de mãe e tia pelas histórias do passado que elas me contam. A edição revela muito. Que partes esconderam, que trechos negritaram, que momento contaram o quê.

Quando elas recitam a letra da música do tio Manuel, sei o que foi toda uma época, sem que elas precisem explicar o que se pensava de uma moça solteira que perdesse a virgindade no final dos anos 40. Não pelos versos, que nunca decorei, mas pelo fato de elas se lembrarem. Tanta coisa passou, mas a música ainda está intacta na memória. Por quê? Acho que por medo, podia acontecer com elas. Ver a família e os vizinhos cantando juntos uma letra horrível para a Horrorosa. Melhor que ler João e a Maria: na Lapa dos anos 40, você não era jogada na floresta, ia direto pro fundo do poço. 

*

Leio muitas histórias para a minha filha. Uma, inclusive, que trata da separação dos pais. Um pai que vai embora. Mas ela não liga muito, tanto faz um rei ir embora como um coelho sair da toca. Acho que a história que ela vai gravar, e que de alguma forma também sou eu que vou contar, é o que aconteceu com a rainha depois que o reino ficou às traças. Não encontro um livro que dê conta do que fica, só do que vai. O que fica, o que não rende história, o que é todo dia e não contém nenhum gesto eloquente. Quando a rainha está distraída é que a filha pode absorver melhor a história. No que falo e no que escondo, como reajo à visão do pai. Aí é que a história será um dia para ela um tesouro familiar.

Somos de uma família de histórias, a Aurora também vai ficar com algumas. Por enquanto, não sabemos o final.

Xixi

Não é a primeira vez que penso “comigo vai ser mais difícil”. E meu analista, que conhece melhor que ninguém essa história, sempre faz apostas em contrário, as quais invariavelmente ganha. Melhor jeito de perder, não há. Pago com prazer — embora ele nunca tenha me dito o que queria como prenda. Em todo caso, achei que o desfralde da minha filha seria mais difícil do que foi, e principalmente porque li sobre o assunto e formei uma opinião prévia sobre como e quando proceder. O como era mais ou menos na mesma linha que guiou a amamentação — deixei rolar sem horário e sem lugar certo pra acontecer. Transpondo a “livre demanda way of life” para o universo do penico, acreditei que também tinha que deixar rolar até que ELA me desse os sinais de quando estaria pronta. E vai saber que sinais são esses. Fiquei que nem crente sem altar, esperando pra ver o que não sabia o que era. Enfim, reconheci que já estava na hora de tentar, e passei a esperar o verão para montar uma rotina na qual o penico fosse o centro. Fomos para um sítio e o penico ficava sempre onde ela estava, ao lado dos lápis de cor e das folhas em branco. Durante esses cinco dias, o que aconteceu é que ela fazia xixi na calcinha e, uma vez que começava, eu corria com o penico pra baixo dela. Foi aí que me lembrei: comigo, vai ser mais difícil, afinal esse não deve ser o método do desfralde. E passavam-se os dias e as pilhas de calcinha se revezavam no varal, mas nada de ela entender que podia pressentir o xixi antes. Cinco dias, afinal, é muito pouco. Mas eu estava cansada. Lavar calcinhas da hora que acordava até a hora de dormir, quando enfim colocava uma fralda, estava me deixando desanimada. Essa rotina se repetiu em São Paulo, e continuei pensando que talvez o sinal fosse chegar. Eu podia muito bem estar inventando que a hora tinha chegado e a hora não ter chegado coisa nenhuma. Toda mãe de primeiro filho com quem falei do assunto disse que passou pelo mesmo, a diferença é que todas tinham uma série de conselhos dados pelo pediatra que as guiava. Eu ouvia, mas internamente desprezava todos os conselhos porque todos envolviam um fator que me desagradava: a artificialidade, o “na marra” e coisas assim. Com a gente teria que ser mais como uma conversa, e eu não tinha certeza de que a Aurora estava interessada em tê-la. Deixei de lado. Voltei atrás com o desfralde, deixando apenas o penico como lembrança da experiência no réveillon do sítio. Até que ela própria me disse, alguns dias depois: “Mamãe, fiz xixi”. Esse era o meu sinal! Entendi que ela havia aprendido uma coisa importante, que era tomar conhecimento de que o xixi saía. Mesmo que depois que ele tivesse saído. No dia seguinte, voltei à tona. Pela manhã, tirei a fralda, expliquei que quando ela quisesse podia sentar no peniquinho e fazer xixi e cocô, por isso eu não ia colocar fralda, só a calcinha. E apresentei a pilha de calcinhas espetaculares que ela tem, de cores, formatos e estampas diferentes, algumas com bunda rica e tudo e ela adorou. Passou a escolher junto comigo que calcinha vestir, e a cada xixi na calcinha, a gente repetia o ritual do aviso — mamãe, xixi! — e o da escolha da próxima da pilha. Passaram-se uns três dias, mais ou menos, e ela começou a fazer um sinal que se repetia sempre antes de fazer xixi, que era parecido com uma coceira na vagina. E a partir daí eu aprendi que sempre que isso acontecia era hora de correr até lá, tirar a calcinha e sentá-la no penico. Não deu dois dias assim, ela passou a ir sozinha ao penico, de calcinha e tudo. Comemorávamos em família, batendo palma e nos admirando com a rapidez com que ela estava aprendendo, o que resultou numa espécie de orgulho do próprio xixi, que mesmo sem querer fazer ela simulava, sentada no seu penico na sala. Houve uma noite. Uma apenas, e no dia seguinte ela acordou diferente. No primeiro xixi, não aceitou ajuda de ninguém e tirou sozinha a calcinha, sentou sozinha no penico e, sozinha, quis erguer o penico e levá-lo ao banheiro, para dar descarga. Nesse primeiro dia, nesse momento, eu e os avós dela, que estávamos todos na sala, ficamos parados, com a respiração meio presa, porque era como se ela tivesse processado muitas informações durante uma noite e acordado com treinamento avançado em independência urinária. Um choque. E assim vem sendo desde então. Como sempre quando ela conquista algum conhecimento, passou dias e dias treinando, se aperfeiçoando na ciência do xixi, da escolha da calcinha (instituí uma gaveta no quarto dela onde sempre guardamos calcinhas e ela já vai até lá sozinha para buscar a peça nova) e da descarga do “material”, que inclui também o famoso cocô. Até que, menos de quinze dias depois, atingiu uma espécie de solidez desse conhecimento e passou a menosprezá-lo. Grande coisa usar o penico, não quero mais. Me lembrei que isso também aconteceu quando ela começou a andar, quando começou a falar, a dormir sozinha na cama dela: uma hora enche e ela quer voltar pra como era antes. Da minha parte, deixei que ela voltasse, afinal interpreto que essas voltas são mais uma amostra de insegurança do que realmente um passo atrás no sentido ruim da expressão, como retrocesso. Não. Ela conquista um grau de independência, aperfeiçoa essa distância da mãe e dos cuidados em geral, aprende que pode, e depois que os adultos ao redor deixam de correr para ela cada vez que aquilo acontece, ou seja, depois que entendem eles também que ela sabe fazer sozinha, é como se ela voltasse ao antigo estágio de dependência para testar se a gente ainda está lá. E a minha postura é: estou, sim, e se nesse momento para expressar isso a você eu tiver que lavar mais umas calcinhas no meio do dia, ok. Voltar pra fralda, no entanto, não. Primeiro vamos voltar apenas um estágio e ver se você se sente segura, depois, se não der mesmo certo, a gente volta dois. Não precisou: um estágio para trás — entenda-se: xixi na calcinha e rejeição ao penico — e ela ficou segura outra vez. Nos dias seguintes, voltou a usar o penico e hoje, acho, já não se preocupa muito com isso. Faz xixi e cocô no penico e adora, a-d-o-r-a ser acompanhada na função por mais alguém, que está lá para ver o que ela produziu no final e auxiliá-la no final, quando chega a hora mais legal de todas que é dizer “tchau, xixi!”.  Foi (muito) mais fácil pra mim.

Lixo

Num daqueles momentos acríticos, em que você amontoa objetos de maneira instintiva, distribuindo-os pelo espaço como se os limites entre o que fica e o que vai pro lixo fossem uma segunda natureza dentro de você, não é preciso considerar nada, como no início do processo, quando você pesa até mesmo se fazer faxina é o melhor para aquele momento, se vale a pena começar algo para não concluir, dá tempo de trabalhar depois?, etc. Logo já não há dúvida de coisa alguma, e é evidente que a escova de roupas não tem sentido num ambiente em que vivem duas mulheres, uma delas criança, e onde um terno, uma calça ou mesmo um paletó não entram e por isso mesmo não saem com bolinhas. Lixo na hora. O mesmo para os confeitos em forma de coração que, num outro surto acrítico, dessa vez pré-aniversário da criança mulher, você comprou, mesmo que o pacote contivesse quinhentos gramas e levasse vinte e seis linhas – você contou – de palavras para dizer o que ia na composição da receita, o que pareceu suspeito – esse troço jamais vai apodrecer – mas ainda assim você comprou, porque é isso mesmo que sente pela filha e quer registrar em bolo. Um milhão de corações. Lixo, meu coração não é de anilina, e se deixado fora da geladeira apodrece, “o confeito não me representa” etc. então o saco do reciclável explode de tanta tralha e cai lá de dentro um desenho de rodinha em giz azul. Opa, peraí, cê tá jogando fora o desenho da menina. São dezenas, todos primitivíssimos, amassados e de vez em quando cheios de intervenções posteriores, já a lápis de cor ou até mesmo caneta bic. Tem uma beleza nesses desenhos, os patos feios da coleção maníaca da mamãe, que embola post-its rabiscados numa pasta e sonha um dia catalogá-los pelo que só ela enxerga de rupestre ali. Capitulo com vergonha de mim mesma, mas tiro um a um os desenhos do saco e adio outra vez a reciclagem – o problema do excesso de crítica. Cadê a editora? Aquele lance do espeto de pau.

Nossa biblioteca #1: Pipo e póli — A poça

Comprei o livro por conta do tema, descrito na quarta capa como “os desafios de aprender a usar o penico”. Mas me surpreendi.

Pipo é um coelho, Póli, uma rata. Depois do lanche, Pipo, que havia esquecido de ir ao banheiro, acaba fazendo no chão. “Xiii!”, diz Póli olhando para uma poça de xixi no chão, ao que Pipo reage com constrangimento. Mas ele não precisa ficar assim, “isso acontece com todo mundo”, diz a ratinha.

E é nesse ponto que a história se torna interessante. Póli oferece algumas roupas  a Pipo, e o texto não faz referência aos modelos dessas peças. A ilustração é que vai oferecer uma perspectiva interessante da cena:

póli empresta roupa

Na página seguinte, Pipo aparece brincando feliz com a amiga. Outra vez o texto não comenta, e é preciso atentar para a ilustração para descobrir que Pipo está usando um vestido.

pipo usa vestido

Antes, Pipo e Póli haviam brincado de “levar os bebês para passear” — e também naquele quadro a ilustração mostra Pipo empurrando um carrinho de bebê, enquanto Póli, a menina, carrega seus bonecos numa caixa de papelão amarrada  a uma corda. Seria mero acaso?

Acredito que não existe acaso em livro. Tudo no texto, na imagem e, de maneria mais ampla, na plasticidade do objeto, diz a que veio. Imaginar que o autor nem percebeu que empurrar carrinho de bebê é considerado coisa de menina e que, portanto, sua decisão de desenhar um menino na função é um posicionamento político, me parece ingênuo e descabido. Talvez por isso mesmo eu goste tanto e cada vez mais desse livro. Pipo e Póli – A poça é questionador sem ser panfletário, mas principalmente sem ser explicativo.

Quem se explica sou eu: não se trata de um livro no qual texto e imagem se repetem. Nele, o texto funciona como um roteiro básico, a que cabe principalmente organizar uma possível leitura das imagens, sendo essas ora usadas para apenas interpretar em sua linguagem própria aquilo que o texto está dizendo com palavras, ora para extrapolar a narrativa textual e oferecer, como no caso do vestido e do carrinho de bebê, uma camada narrativa. Poderíamos ler o livro contando inúmeras histórias a partir das imagens, assim como também imaginando que Pipo e Póli poderiam não ser bichos, mas crianças, e que para essas últimas haveria outros desdobramentos narrativos, os quais incluiriam certamente a presença dos pais, dos adultos — e das pessoas que comentariam baixinho “ele está usando vestido, xiii…”.

O trunfo de Pipo e Póli – A poça é manter pontos de vazio narrativo no texto, permitindo que as imagens falem por si ou apresentem problemas que o texto não enuncia.

Sem necessidade de panfletar, o livro traz uma mensagem essencialmente cara ao feminismo. Mas essa mesma mensagem, por não ser textual, também pode ser lida de outra maneira. Podemos acreditar que se trata de um comentário do autor à indiferença entre os gêneros que experimentamos na primeira infância, quando uma de nossas questões mais prementes é o controle dos esfíncteres e o manejo do penico. Se menino pode ou não brincar com boneca ou usar vestido, pouco importa: isso ainda nos parece coisa de gente grande.

Também conhecida como vó

A primeira forma de nos confundir foi chamando minha mãe de mãe e a mim de mamãe, uma espécie de desdobramento de uma mesma figura. No começo achamos que a explicação mais lógica era a da imitação: como eu chamo minha mãe de “mãe”, esse teria sido desde sempre para a Aurora o nome dela, razão pela qual ela então estaria chamando a vovó de “mãe”. Com o tempo Aurora desenvolveu um novo vocábulo para designar essa figura mista: “vavãe”. Ele serve tanto para mim como para minha mãe, que compomos o corpo materno principal no cuidado diário e também global da Aurora, tomando juntas decisões e até planejando o futuro como se fôssemos um casal com filho. Nem sempre essa relação entre mães é tranquila. Há um conflito evidente de gerações, pois a vovó é minha mãe e eu sou filha dela, mas quando se trata da Aurora a mãe sou eu e ela é a avó, o que é ontologicamente distinto. O conflito surge principalmente quando duas visões de maternidade se chocam: eu acho isso e a vovó acha aquilo. Na nossa relação natural, ou seja, de mãe e filha, haveria uma hierarquia vertical, ela sendo a mais velha e a responsável, a mim cabendo quase sempre discordar ou concordar, mas não mostrar o primeiro caminho. Naquilo que se refere à Aurora, no entanto, o espaço entre nós se torna subitamente horizontal, comportando duas mães ao mesmo tempo. Ela minha, eu da Aurora, mas ambas mães. Mas quando sou mãe dificilmente me sinto filha, preciso sair de uma posição para ocupar a outra. Some-se a isso o fato de morarmos as três juntas e está feita a confusão. Ou melhor, o campo de batalha, porque não chega a ser realmente confuso, apenas conflituoso. A Aurora resume essa dupla responsabilização na palavra “vavãe”, alternando-a com “mãvó”. Nem mamãe nem vovó: uma coisa entre as duas ou maior que ambas. Nós.

Já chego lá

Depois que um bloco de carnaval refez o curso de um antigo rio canalizado, depois que um amigo arquiteto comentou que a cidade era toda de paralelepípedo antes de ser asfaltada, depois de perceber que as três favelas perto da minha casa são as únicas construções fiéis à topografia original do vale onde se construiu o meu bairro (as favelas estão hoje onde passava um rio, enquanto as casas ocupam os terrenos inclinados), depois dessa espécie de despertar para o chão é que me dei conta do seguinte: aqui onde eu moro, um lugar feio que dói, um desses bairros em que quase não existe calçada e em que as pessoas depredam quase qualquer coisa que pareça limpa e branca, em cuja entrada há um arco de metal tubular dando boas-vindas – esse bairro era lindo.

Numa época em que o som dos carros de suspensão rebaixada ainda não tinha potência para fazer vibrar a minha calça jeans, antes e por baixo do asfalto havia um vale com seringueiras e uma certa névoa de umidade acumulada na parte mais alta do vale, que fazia suar o caminhante na trilha ao lado do curso do rio. Esse rio desaguava num rio maior, cujo nome, ironicamente, é rio Pequeno, e que, como o menor, foi aterrado. O que não me impede de decifrar a topografia descaracterizada, uma vez que o fio d’água onde um dia foi o rio menor ainda existe, e aliás na mesma posição central que uma rua ocupa em relação às casas dos dois lados da calçada, com a diferença apenas que o fio d’água é estreito demais até para um carro e que as habitações que lhe seguem como paralelas de um trem são barracos de favela. Mas a topografia oculta, quando se procura, está toda lá: ali passava o rio, eu moro onde antes foi o começo do vale. O nome da minha rua é primitivo e reflete com perfeição o momento em que se decidiu derrubar árvores, roçados e pastos e lotear o vale todo: rua 4. A de baixo é rua 1, e assim sucessivamente.

Mudei faz muitos anos desse bairro, e quando saí minha satisfação foi tremenda. Sempre detestei morar aqui (destaque para o número de cachorros abandonados que latem dia e noite como se comunicassem algo urgente para os amigos do outro lado do vale). Até que minha vida se tornou ela própria um vale soterrado e mais barulhento do que eu podia imaginar, e voltei. Em seguida, engravidei. E mal pude acreditar que ela nasceu – e que iria passar a infância, ou parte dela – nesse lugar. A única coisa que me consolava era pensar: “pô, sei lá, vai que né”. Também me senti agradecida às entidades em que todos acreditam, aos gênios e diabos que escolhem fazer um agrado na gente sem mais nem menos, quando a July foi atropelada e morreu no mesmo dia. Quer dizer: foi latir na puta que o pariu, se tal lugar há. Mas a dona não aguentou a solidão e adotou o Max, um pentelho em menor dimensão. Sei lá, vai que putz.

Quando ela nasceu, ela não andava. Quando ela começou a andar, eu fazia outros percursos, de preferência para cima e para longe. Só que um dia ela quis ir. Passamos pelo terreno baldio, onde uma pilha ancestral de entulho leva à rua 2, fechada por seções de cano de esgoto de concreto, com 2 metros de altura cada. O entulho está no mesmo lugar desde a década de 1980, sei porque era desse mesmo monte que eu roubava tijolo para riscar amarelinha no chão ou declarar BIA AMA JUCA e depois riscar a palavra “ama”, estando certa de que jamais saberiam o que nossos nomes faziam juntos dentro de um mesmo coração cor de tijolo. Voltando aos canos, com o tempo foram pichados, dentro deles jogou-se terra, e sobre a terra plantaram samambaias, o que seria até interessante, não fosse o fato de que as samambaias malnutridas tendem a ficar calvas, e nos buracos que se abriram no centro da folhagem brotaram bolotas de papel manteiga engordurado, camisinhas e embalagens de Kapo sabor uva. Passando o muro de Berlim, pois esse é o sentido da instalação para quem a colocou ali, entra-se na área da quadra e da primeira favela, onde há uma quadra de cimento onde todos os dias, em quase todos os horários, há uma fila de meninos para jogar bola. Quem faz gol sai.

Dar duas voltas no quarteirão me fez lembrar de muitas coisas. Mas mais que isso, me fez descobrir coisas que sempre estiveram lá e nunca notei. Como a seringueira. E a praça. E que o segundo menino de quem eu gostei foi assassinado. E que a moça do Yakult ainda pode passar em casa uma vez por semana, é que faz tempo que a sua mãe não pede, tirei o endereço da rota diária. Já não é minha mãe que tem filho, sou eu, então pode começar de novo a marcar aí: uma bandeja de tampa vermelha toda quarta. Conheci Sheik, o cachorro ideal, fiz pesquisa de opinião informalmente – e embora esse diálogo tenha me deixado animada, no sentido de que havia interesse em ajeitar a praça — descobri que no meu bairro ainda se fala em termos de “dividir” e “proteger” nosso “território” do “da favela”. E que o medo maior gira em torno dos mais novos, os meninos que jogam bola ou fumam maconha. “Vamos fazer a praça, sim, mas sem banco, sem aparelho de ginástica, senão eles vão vir pra cá.” Esse é meu bairro velho de guerra! Gente batalhadora e, sem saber, partidária de guetos, de pogroms, de carandirus, de dizer “os moleque da favela quebra tudo, eles não pode ganha nada que eles quebra, que que adianta a prefeitura varrer? Eles vão lá e suja tudo de novo”. Quase pude ouvir as crianças reproduzindo o discurso dos pais em 1989, alertando a mim e a meu irmão que, se o Lula ganhasse, ele ia colocar um monte de favelado pra morar no meu quarto. Do meu bairro eu não tenho saudade, nunca tive, mas como moro nele e esse é o mundo que eu tenho para apresentar a minha filha, então resolvi deixar ela me ensinar alguma coisa. Não quis impregná-la com o que eu acho. Me diz você: o que tem de bom aqui?

Ela já me mostrou as pessoas. As repúblicas se multiplicando e trazendo um público com cara de novinho e caderno na mão, roupas de brechó e bicicletas por todos os lados. Sempre que andamos por aí, ela me pede para ver os meninos jogando bola, de modo que ficamos amigas deles, o único público. Sempre ganho um presente. Uma folha, uma pinha, pedra, flor. Daí hoje eu fiz questão: Chô, nesse terreno aí tinha uma família que a mamãe nunca esqueceu. E no fundo da casa deles, tinha uma mangueira. Antes de construírem esse sobrado pavoroso com varanda de vidro verde, era uma casa feia, velha, que eu adorava. Todos tinham nomes que começavam com J. E talvez isso se deva ao fato de terem vindo de Jaboticabal. Nessa casa, eu vi muita coisa. A começar pela unha vermelha da mãe, que era costureira. E as marcas de fio desencapado na canela da minha melhor amiga. Ela apanhava muito, mas nunca ficava triste. Tenho tantas histórias para te contar daqui que num passeio só não vai dar. Falo dos salgadinhos depois.

Heróis

Os animais favoritos da Aurora me parecem uma vitória da natureza. São impossíveis, do ponto de vista do design. E ainda assim existem. O cachorro linguiça, por exemplo. Aurora recebe constantemente a visita de um filhote dessa espécie, e fico impressionada com o fato de que ele sobe escada. Com aquelas patas! Um erro evidente, uma coisa que não deve ter saído direito, mas que de um jeito louco, funciona. Me pergunto em que habitat isso era uma vantagem. Cachorro do mangue? O degrau tem 20 centímetros, a pata tem 3. A natureza fez esse animal subir escada. Um herói. E depois tem o jabuti. Esse é um bicho que me espanta de verdade. Ele não tem a vantagem de ser fofo, como o salsicha, ele é horrível. Cara de cobra, pálpebra que fecha de baixo pra cima, casco. Mas o jabuti tá na vida, e segundo eu pesquisei, há milhares de anos. Em que ambiente, meu deus do céu, em que ambiente era bom ter patas que não pisam direito no solo e um casco que, se virado, torna o animal vítima do próprio peso? Nenhum bicho com tamanho talento para o suicídio jamais existiu sobre a Terra. Como sobreviveu? Quem são seus predadores? E, se existem, como deixaram passar uma maçaroca retrátil cuja velocidade – embora não tão baixa como se preconiza – não permite agilidade? Uma cobrinha empacotada e lenta. Penso com curiosidade em como o predador perdeu a briga, seja ele quem for. Estudando um pouco mais sobre o jabuti, encontrei uma referência a ele como “osso que anda”, porque é um pedação de cálcio com capacidade motora. Ele morre é de doença reumática. Seja como for, é um réptil de design impossível. Eis os heróis da minha filha. O jabuti e o cachorro linguiça. Coisas que, projetadas e apresentadas numa rodada de negócios, não convenceriam ninguém a botar dinheiro. Mas como ventilador de caminhão, caneta quatro cores e bicicletas pra casal, sobreviveram. Animais que tornam o cotidiano um pouco absurdo, como tudo o que se escreve, se representa e se conta para crianças.

Segunda geração

Você está próxima da minha primeira memória. Lembro de mim em pé, o tampo da mesa só um pouco mais alto, e a janela aberta. A luz que preenche o espaço é branca, o dia talvez nublado. É provável que houvesse alguém por perto, muito embora eu sinta que só eu existo. Só eu existo, talvez este o sentimento principal da infância. E essa é a primeira vez que registro o sentimento, a mesa de jantar também está marcada. Agora é você que quase alcança o tampo dela, e por mais insignificante que seja, é um marco pelo qual venho aguardando: a altura da mesa é o ponto em que eu comecei. Os meses anteriores são a pré-história, um nada sonoro como a vida intrauterina. Você me pegou. Sua vez.

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